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Afinal o tamanho conta

Afinal o tamanho conta

2017-02-17
Fomos até Santa Iria da Azóia, perto de Loures, para conhecer um clube amador que trabalha de forma exemplar. Verificámos isso na organização, como nos foi explicando o diretor desportivo ao mostrar as instalações, onde nem falta banho de gelo a cada duas semanas, e na entrega dos jogadores no treino ao fim de um dia de trabalho.

Depois de na temporada passada ter discutido a subida ao Campeonato de Portugal e conquistado a taça da AF Lisboa ao bater o Lourel na final, esta época o Santa Iria conseguiu o momento mais alto dos seus 75 anos de história ao atingir a terceira eliminatória da Taça de Portugal.

Após eliminar Malveira e Beneditense, o sorteio ditou o Vitória de Guimarães como adversário. O estádio do Sacavenense encheu e, perante cerca de três mil adeptos, o Santa Iria vendeu cara a derrota, por 2-1, frente aos minhotos. “Tenho uma imagem que nunca mais vou esquecer, que foi um dos sócios mais antigos dizer-me que era o dia mais feliz da vida dele”, partilha Dani, o diretor desportivo.

O autor do único golo do Santa Iria nessa partida foi Flecha, avançado de 32 anos, que confessa alguma amargura por não ter alcançado outros patamares. “Ficou a felicidade por ter marcado ao Vitória, mas também o sentimento de que podia ter dado mais no futebol”, admite o avançado cuja alcunha surgiu ainda em miúdo.  “Tinha um penteado muito radical na altura, que era à tigela. Como tinha uma velocidade diferente dos outros, o cabelo ficava para trás e foi ficando Flecha”, conta entre risos.

O goleador acredita que hoje é mais fácil chegar ao futebol profissional e deixa um conselho aos colegas: “No nosso plantel temos qualidade, jovens que podem lá chegar. Quando entram para dentro de campo devem dar o seu melhor porque não faltam olheiros.”

Com cerca de 330 atletas em 14 equipas, das quais três são de futsal, com escalões dos petizes aos veteranos e um orçamento de 50 mil euros para o futebol, o Santa Iria tem um obstáculo ao seu crescimento: o campo. “Temos aqui um eterno problema que não conseguimos resolver. Não temos as medidas necessárias para ir para o Nacional, faltam-nos oito metros de largura”, diz o presidente Rui Patrício.

Há dois anos fizeram a remodelação da relva, um sintético em excelente estado, e alargaram três metros, mas não dá para mais. “Se formos para o Nacional temos de alugar campo. Se calhar depois os sócios não vão, perdemos receitas de bar... Temos de pensar muito bem”, desabafa o líder do clube cuja meta está bem definida.

“O objetivo principal é não descer de divisão, ficarmos na Pro-Nacional. Tudo o que vier a mais é sempre positivo”, constata. Sem salários e com prémios de jogo apenas em caso de vitória e empate, apesar de haver clubes amadores que pagam ordenados, Flecha diz que a motivação tem de vir de dentro.

“Quando se é amador o que se ganha não vai fazer grande diferença, é mesmo pela paixão pelo futebol. Quem tem família, filhos e o seu trabalho deixa de fazer certas coisas em detrimento dessa paixão.”

A cumprir a terceira época no clube, o treinador Nuno Lopes diz que o segredo para o empenho dos jogadores é tentarem chegar o mais longe possível. “Costumo dizer que não somos um clube profissional, mas trabalhamos a roçar o profissionalismo. Só dessa forma é que atingimos os nossos objetivos e fazemos crescer os jogadores.”

Bruno Pais, hoje no Malveira, é um exemplo de um jogador formado no clube que atingiu o futebol profissional, como nos contou o presidente: “Saiu para o Nacional da Madeira, em juniores. Depois foi para o Sporting.”

Então e, sem salários, como se convence um jogador a assinar? “Através do projeto e das pessoas envolvidas. A época que fizemos no ano passado marcou claramente o antes e o depois”, explica Dani. “Hoje temos jogadores que vêm de Sintra e já tivemos jogadores que vinham da margem sul para aqui. Conseguimos alargar a prospeção e recrutámos jogadores de outros pontos perto de Lisboa.”

Entre as várias profissões dos jogadores, Dani destaca o empenho de Félix, um dos capitães. “É carpinteiro. Passa o dia em pé a trabalhar, depois chega aqui e no treino é claramente dos jogadores mais disponíveis, com uma dedicação enorme e que enche de orgulho quem está à frente do clube”, revela o diretor desportivo.

“Temos também o Flecha, que era camionista. Andava o dia inteiro com o camião para Leiria. Todos eles trabalham, têm uma profissão e chegam aqui e têm de treinar forte.” Os resultados estão à vista.

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