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A paixão de Paula Pinho

A paixão de Paula Pinho

2019-06-05

Paula Pinho dedicou a sua vida ao Clube de Albergaria. Primeiro como jogadora, depois como treinadora, ajudou no processo de reconstrução da equipa do distrito de Aveiro e sente que faltam mais apoios para que as mulheres optem pela carreira de treinadora.

A Paula foi jogadora de futebol durante muitos anos. Por que razão decidiu abraçar a carreira de treinadora?
Foi um processo natural. Ainda como jogadora, não era “só jogadora”. Quero com isto dizer que desde muito cedo, talvez por ter estado na formação da primeira equipa em Albergaria, me envolvia em questões que iam para além das competências enquanto jogadora. Quando decidi terminar como jogadora, disse à Direção de então que podiam contar comigo naquilo que considerassem ser o melhor para o Clube e surgiu esse desafio.

Que principais diferenças nota entre o futebol feminino de hoje e o do tempo em que jogava?
São tantas e em tão diferentes perspetivas, que se torna difícil enumerar… Condições de treino e jogo incomparavelmente melhores; qualidade de treino também como consequência dessa melhoria de condições, bem como da qualificação dos e das treinadoras/es. Toda a estrutura que envolve o Futebol Feminino evoluiu e melhorou… Clubes, Associações de Futebol, Federação Portuguesa de Futebol. Sentimos que há uma ideia de desenvolvimento transversal, há um caminho traçado e que os Clubes, dentro do que é possível, estão a segui-lo. Isto acaba por ser um processo que a seu tempo se vai traduzindo numa mais qualidade e exigência de todos os elementos envolvidos.

Nota que as jogadoras têm dificuldade em conciliar o horário dos treinos com o trabalho ou a escola?
Sim, claro. Num clube com jogadoras amadoras é inevitável. Tenho jogadoras seniores, em que há semanas que não podem treinar porque o horário de trabalho sendo por turnos, não o permite. Basta-me descrever as condições do meu clube, que sei que não é o único. O Estádio onde treinamos é municipal e partilhado com outro clube. O horário disponível para treino que as equipas femininas (juvenis, juniores e seniores) têm para treinar é após as 20.30h. Significa então que o treino nunca termina antes das 22h, para pessoas que ao outro dia terão que se levantar cedíssimo.

O que falta para chegarmos à profissionalização do futebol feminino?
Capacidade financeira por parte dos clubes. Passar à profissionalização implica passar de orçamentos de dezenas de milhares de euros para orçamentos de centenas de milhares! A questão é: quem tem capacidade para tal? Parece-me que só os grandes dos grandes…

O Sporting, o SC Braga e o Benfica aderiram recentemente ao futebol feminino. Aconselha o FC Porto, o Vitória de Guimarães, o Rio Ave e outros clubes da Liga NOS a fazer o mesmo?
No ponto que está o futebol atualmente no nosso país, aconselharia… À partida esses clubes terão capacidade de oferecer melhores condições para a prática. Digo à partida porque ainda continuo muito renitente em relação aos clubes da Liga NOS que não os grandes. Terão eles encaixe financeiro para suportar uma equipa feminina profissional, quando sabemos das dificuldades que sentem durante a época para cumprirem as obrigações salariais com os jogadores da equipa masculina?!!! Sporting, Braga, Benfica e eventualmente mais um ou dois acabam por ter uma mega-estrutura montada que lhes permite avançar por aí. No fundo, orçamento da equipa feminina acaba por não ter um peso relevante no que é a realidade financeira deles. E os restantes?

Como foram os primeiros tempos como treinadora de futebol? Sentia saudades de pisar os relvados? Foi uma adaptação difícil?
Não senti uma única vez saudade de jogar. Aquela coisa de, mesmo como treinadora, entrar nas peladinhas só para matar saudades, nunca aconteceu comigo. Saí quando senti que já não havia um equilíbrio entre o esforço que estava a fazer para jogar e o que o Futebol me proporcionava. E saí bem. E ao começar o desafio de treinadora, estava bem. Fui por inteiro. Foi, e é, uma aprendizagem constante. Recordo-me que na altura foi uma “limpeza” no Clube de Albergaria, praticamente começar de novo. Definimos o que queríamos e começamos a trabalhar nesse sentido. Sem loucuras, de uma forma sustentada, tal como é ainda hoje… Tantas e tantas vezes, nesses primeiros tempos de treinadora, pensava - teria sido incomparavelmente melhor jogadora se tivesse treinado antes alguma equipa.

A Paula é das poucas treinadoras em Portugal. Além de si, apenas a Alfredina e a Madalena Gala, que também foram jogadoras, treinam equipas da Liga BPI. O que deve ser feito de forma a incentivar mais mulheres a seguirem a carreira de treinadora?
Se você encarar isto numa vertente profissional o raciocino é... Que retorno financeiro tiro eu ao treinar uma equipa feminina? Face ao investimento na formação enquanto treinadoras (custo dos cursos, tempo despendido, despesas inerentes …) que compensação tenho eu? Isto poderá ser um fator inibidor. Uma outra perspetiva, e talvez a mais importante, é a vertente social, o que está instituído, também no Futebol. Futebol foi e infelizmente ainda é um reduto machista. Socialmente falando em muitas situações continua a ser um “partir pedra” nesse processo de afirmação natural da mulher. E esta dificuldade existe, curiosamente, na cabeça de algumas mulheres. Tal como as meninas de uma forma natural começam a jogar aos 5/6 anos, também as mulheres deverão naturalmente tornarem-se treinadoras, árbitras, diretoras no futebol, seja de equipas masculinas ou femininas.

Parece-lhe natural não existirem mulheres a treinar no masculino, mas haver homens no feminino?
No seguimento do que lhe disse anteriormente, infelizmente é natural. Na verdade, o que também acontece muitas vezes é que a própria mulher, acredito que inconscientemente, se acomoda a essa situação e acaba ela própria por criar resistências que só a prejudicam: “não vou tirar o curso de treinadora porque sou a única mulher no meio de tantos homens”, “não quero ir treinar equipa masculina porque eles não respeitam e não levam a sério uma mulher como treinadora…” Quantas e quantas vezes já ouvimos ou sabemos que muita gente pensa… “aquele gajo está a treinar mulheres porque não arranja nenhuma equipa masculina que o queira”. Isto tudo são ideias já há muito instituídas que acabam por funcionar como resistência à entrada da mulher num mundo que também poderá e deverá ser seu.

Existe cultura tática no futebol feminino nacional?
Existe. Da mesma forma que existe no Futebol masculino, seja na Liga NOS ou nos Campeonatos Distritais. Em cada treinador há sempre uma ideia de jogo para a sua equipa. Seja qual for o treinador, seja qual for a equipa. Mais simples, mais elaborada, mais consensual ou não, em tese existe sempre. O problema é pôr em prática essa ideia. Você pode ter o melhor treinador no plano teórico, o mais conhecedor destas coisas dos momentos do jogo, modelo de jogo, sistemas táticos (ao domingo estão muitos na bancada e à segunda-feira também há muitos nos programas de TV) mas depois em treino não consegue materializar isso. No feminino há a particularidade de elas começarem a prática mais tarde que eles e muitas vezes saltarem etapas na sua formação, o que acaba por lhes trazer algumas lacunas, também na apreensão do jogo.

O Sporting, o Benfica e o SC Braga reforçaram os seus plantéis com algumas jogadoras estrangeiras. Os clubes devem continuar a apostar na jogadora portuguesa?
Claro que devem apostar na jogadora portuguesa. Esta é uma questão de fundo. Aparecendo estes clubes grandes, logicamente que lutam para serem campeões. Logicamente também, que querem ter no plantel as melhores jogadoras. Eles quando apareceram entraram logo em competição nas seniores, significa então que foram buscar as melhores jogadoras aos outros clubes. Então, as melhores, neste momento, estão concentradas nos grandes! E se aparecerem mais clubes grandes??? Há jogadoras suficientes, com qualidade, que obedeçam a esses requisitos? Há jogadoras “já feitas” para alimentar e garantir os objetivos a que se propõem? Se calhar não! Isto parece-me bastante importante - alargamento da base, a massificação, para que se possa ter qualidade suficiente e consequentemente campeonatos competitivos. Além de, para os pequenos não haver outra alternativa, parece-me que para os restantes grandes, caso realmente apareçam, é ao que terão de recorrer e apostar.

As jogadoras jovens portuguesas garantem o futuro do nosso futebol feminino?
Tecnicamente falando, podem garantir, se tiverem um processo normal de crescimento enquanto jogadoras. Jogadora cresce em contexto de dificuldade, em contexto de competição. Jogadora cresce e evolui a jogar. Atualmente colocam-se algumas questões a algumas das nossas jovens jogadoras com qualidade… “ Tenho 15 anos, que faço? Jogo Futebol 7 no Campeonato Distrital Juvenil aqui no Clube onde comecei; Futebol 9 no Campeonato Nacional de Juniores noutro Clube, ou vou já para a equipa B de um grande, jogar Futebol 11 na segunda Divisão? - Pode nem jogar muito tempo, mas já há a expectativa de jogar num grande. Na minha opinião, elas serem e garantirem o futuro do futebol, depende muito da oferta competitiva que temos para oferecer e da lucidez delas na escolha do caminho que decidem ter, num mundo onde cada vez mais aparecem pessoas a influenciar e decidir o trajeto dessas jovens.

Gostava de treinar na vertente masculina ou apenas pretende fazê-lo no feminino?
Não coloco as coisas nesses termos. Pretendo sentir-me bem onde estou. Quando não me sentir bem, vou embora. Para onde? Não sei. Logo se veria. Acho que seria no masculino a mesma treinadora que sou no feminino.

A sua carreira de treinadora conheceu apenas um clube, o Albergaria. Gostaria de treinar um clube de maior dimensão no futuro?
Como treinadora e jogadora! Sempre estive no Clube de Albergaria. Vou repetir-me – também no Futebol, pretendo sentir-me bem onde estou. Quando assim não for vou embora. Tudo na vida tem um equilíbrio e no Clube de Albergaria consegui ao longo destes 30 anos encontrar esse equilíbrio entre o que fui dando ao Futebol e o que ele me proporcionou. E a coisa tem estado equilibrada. Há quem precise de títulos, dinheiro, vitórias, para estar ou continuar num clube. As minhas motivações são outras, sempre foram. Dizem que isto que tenho com o Clube já não tem a ver com competitividade. Dizem que o que me motiva e segura aqui é a causa em si. Não sei o que é, mas sinto-me bem assim. Curiosamente, nunca me ouviram dizer que gostaria de treinar um clube de maior dimensão, mas já me ouviram dizer que gostaria de um dia começar um projeto idêntico ao do Albergaria num outro Clube, num outro local!

Há algum conselho que queira deixar às jogadoras que estão a terminar a carreira e pretendem continuar ligadas ao futebol feminino?
Que sejam responsáveis e competentes no desempenho das suas funções, seja como treinadoras, diretoras, seccionistas, roupeiras ou quaisquer outras.

Qual é a sua opinião sobre a atuação do Sindicato dos Jogadores e da APJA em prol do futebol feminino?
Tenho uma opinião positiva e favorável em relação ao seu desempenho, tal como em relação a todos as outras pessoas, individuais ou coletivas que se esforçam por dar visibilidade à jogadora e às equipas femininas de Futebol, tentando conhecer a fundo o que é a sua realidade, perceber os seus problemas e ajudar nas suas dificuldades.


Perfil
Nome: Ana Paula Pinho Almeida
Data de nascimento: 20 de julho de 1971
Cargo: Treinadora principal de futebol feminino
Clubes que representou como treinadora principal de futebol feminino: Clube de Albergaria.

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